Meu primeiro conto

Bem, pra quem não sabe eu gosto muito de escrever. Por isso criei esse blog, para expor minhas ideias e dizer o que quero. E resolvi arriscar e escrever um conto. Pois é, uma investida literária das mais ousadas (ou ridículas) pra quem nunca estudou o assunto. Mas como eu sou cara dura mesmo escrevi e, ainda por cima, vou postar aqui pra vcs lerem. Não tenho pretensão alguma e o texto é bem simplório, deve ter um monte de erros pra quem conhece contos, mas vou arriscar mesmo assim. Aqui eu posso tudo…hehehe.
Então aí vai. Bjos.

Guilhermina.“O sol esta nascendo. Lá, bem no oeste do estado, onde o mundo parece terminar. Vai ser mais um dia quente de março, mas o ar ainda guarda aquele frescor próprio das manhãs. É sexta-feira e lá fora tudo está como ontem. A paisagem não muda. Nunca muda. Guilhermina, com seus dezessete anos, já a conhece bem. Olhar pela janela do quarto é como olhar para dentro de sua alma. O pequeno sítio da família é seu mundo. Fora a escola suas tarefas ocupam-lhe todo o tempo. A roça parece insistir em ser seu destino. Ainda bem que segunda começam as aulas, pensa.
Guilhermina gosta de ler. Anda sempre à cata de um. Neles ela viaja, sonha e faz planos, planos que estão longe de se concretizar. Ela sabe. Mas não se paga nada por um sonho… Tem dias que ela pensa que todo mundo lhe diz pra acordar. Afinal, o futuro está quase traçado. Já está noiva de Armelindo, um bom sujeito, cresceram juntos, vizinho de sitio. A festança vai ser um acontecimento na região. No interior ninguém perde um casório.
– Vamo, guria, pega o chapéu . Não vou te esperar o dia todo!
Uma rápida olhada no espelho pra ajeitar os cabelos. Não é longe a plantação que tem que ser limpa hoje.
– Ô mãe…eu tava pensando…
– Pensando o quê menina?
– O Armelindo… ele é meio burro…nem sabe ler direito.
– Humm…
– Que futuro eu tenho com ele?
– Futuro? Mas guria, ele tem até umas terras que o pai dele deixou antes de bater as botas! Teu futuro ta garantido! Ô tu acha que teu pai ia te casar com um Zé Ninguém?
– Ta, mãe… mas eu falo de outras coisas…
– Mas que coisas? Tua anda lendo demais… olha aí o pé-de-alface, guria, vai matá ele!
Guilhermina olha pra baixo e imagina como seria ser um pé-de-alface.
O dia passa como tantos outros. O trabalho já nem cansa. Só torna enfadonha a vida de quem tem os olhos em outros horizontes.
A menina está lépida em frente ao espelho, um espelho velho que teima em ficar torto. O cabelo crespo não é fácil de ajeitar. Puxa daqui, puxa dali… bem que podia ter saído ao pai, cabelo lisinho. A mãe diz que cabelo de mulher tem que ser crespo. A mulherada da família é assim, ela diz. Que mania de ser todo mundo igual!
Escolher uma roupa não é coisa complicada, afinal as opções são poucas. Qualquer coisa que não seja usada pra roçar serve. Decide que o vestido de bolinhas foi o que sobrou.
Este é seu último ano do segundo grau. Um feito naquelas paragens. A maioria das pessoas mal cursava o primeiro e já era considerado um entendido.
Armelindo iria acompanhá-la até a escola no primeiro dia, “pra ver o pessoal” ele disse. Mas nem precisava. Houvesse o que houvesse ela estaria lá. Arlindo era engraçado. Morria de medo de cobra, o coitado. Andava olhando em volta, procurando “aquelas danadas”. Bem que podia dormir demais hoje…
Guilhermina achava tão bom estudar, não entendia porque as pessoas desistiam da escola tão cedo. O Armelindo foi um que só cursou até o quinto ano. Ela terminaria o segundo grau de qualquer jeito. Já estava no prejuízo! Com as enchentes do ano passado a escola desabou. Três cheias em um só ano. Daí quem quisesse continuar estudando tinha que ir até o município vizinho. Muito longe. Foi um tormento.
Mas esse ano não, tudo daria certo. Já estava com saudades da professora de biologia. Gostava muito das conversas no intervalo. A Dona Carmem dizia que ela deveria continuar estudando, fazer faculdade, tinha jeito pra ser uma boa bióloga ou qualquer coisa que ela quisesse. Na sua cabeça Guilhermina pensava como diria uma coisa dessas pra mãe.
Cinco horas da manhã, pão caseiro quentinho com manteiga e café preto. Umas linguiças pra reforçar.
– Pai… posso falar uma coisa?
– Fala ué.
– Ano que vem… hã… eu podia ir pra cidade, pra casa do Tio Gustavo e entrar numa faculdade…o que o Senhor Acha?
– Humm… tu já falou com Armelindo sobre isso? O casamento não tava marcado?
– Ah, pai, o Armelindo não entende de nada, vai achar que to querendo fugir dele.
– E não tá?
– Não… acho que não…eu só queria não ter que passar a vida cuidando de pé-de-alface!
– Humm… e tua mãe, já falou pra ela essa coisa?
– Tu fala, né pai? É melhor… a mãe parece que não me enxerga.
– Não fala assim da tua mãe… ela limpou a tua bunda por um bom tempo!
– Desculpa pai, mas ela não me escuta. Só pensa nas alfaces.
O velho Pedro achou melhor não discutir. Guilhermina tinha o sangue dos Becker, quando queria uma coisa não tinha quem lhe tirasse da cabeça. Isso era ideia daquela professora, ele sabia. De qualquer forma ainda tinha um ano pela frente. “Vamos dar tempo ao tempo” era seu lema.
Em setembro todos davam graças a Deus por não terem repassado os horrores do ano anterior. Foi um frio danado, geada de doer o lombo, mas a chuva não castigou tanto. O rio não subiu e a primavera já aparecia nas laranjeiras.
– Guilhermina, tu qué dá uma volta? Tava pensando de a gente ir lá pra beira da lagoa… tu gosta de lá, né?
– Ta… pode ser… ô Armelindo, quero te falar uma coisa.
– To ouvindo.
– Tu sabe que eu gosto de estudar, não sabe?
– Ah, sei sim. Acho muito bonito isso. Eu já não sou dessas coisas…chega pra cá, Guilhermina, esse matinho aí deve ter cobra.
– Dá pra nós… hã … adiarmos nosso casamento pra… daqui a uns anos?
– Hein?

A emergência do Hospital das Graças está lotada. Há macas por todo lado. Os médicos, enfermeiros e atendentes andam de um lado a outro tentando atender todo aquele povaréu. Tem mãe com criança febril, velho com pressão alta demais, gente ferida a faca no bailão da fronteira. Aquele cheiro de doença… de remédios… de pobreza. Sim, porque os mais abastados vão resolver seus problemas na clínica do Dr. Marques, sempre limpinha, com bastante espaço, gente bonita. Já repararam que rico, mesmo doente, é bonito?
A emergência ferve.
Tem um gaiato gritando no fundo da sala:
– Eu vou morrer!!! Alguém me atende, por favor!!!
O médico plantonista ouve a balbúrdia. De repente vê chegando a médica novata, residente recém contratada.
– Doutora… hã… como é mesmo o nome?
– Becker, Dr. Cláudio, Dra. Guilhermina Becker.
-Ah sim, Dra. Guilhermina. Começando hoje, não é? Pois tem um cara lá gritando que vai morrer, lá no fundão. Dá uma olhada pra mim…
– Certo.
– Ta aqui o prontuário… um tal de Armelindo não-sei-das-quantas…ta berrando e diz que foi mordido por uma cobra enorme!!!”

02 de maio de 2010.
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