A polêmica eterna do aborto

Aí está um assunto que sempre gera polêmica: o aborto deve ser legalizado ou continuar sendo crime?
Eu fiz uns comentários no facebook sobre um post onde anexaram um artigo do Bispo Macedo, que é a favor da legalização. Ele inclusive apresentou fundamento bíblico para sua posição. Fundamento bem sinistro, na minha opinião.
Mas eu resolvi escrever aqui no blog sobre o assunto pq ali é um espaço muito pequeno para dar uma visão mais ampla do assunto, que não é nada simples.
Eu já falei sobre isso aqui e, sem querer ser repetitiva, vou tentar ampliar um pouco a coisa.
Em primeiro lugar, temos que lembrar que o Brasil não é um Estado religioso. As pessoas são, mas o Estado não. É laico e assim que deve permanecer. E não sou eu que digo isso. Evangélicos da estirpe de Silas Malafaia afirmam o mesmo. Portanto, a religião, seja ela qual for, não pode pautar as decisões de governo. Por que? Simples, temos liberdade religiosa no país e queremos manter assim. Cada um age e decide conforme suas convicções, sem imposições. Caso contrário qual religião iria ditar as regras? Vale lembrar países como o Irã…Teocracia não funciona politicamente.
Em segundo, a crença de que a vida começa na concepção tem origem religiosa. Muita gente e muitos cientistas afirmam que a vida começa em um período posterior, quando da formação do sistema nervoso. Nosso Código Civil diz que “pessoa” é aquele que nasce com vida. As opiniões divergem bastante, mas uns acreditam que o embrião é uma possibilidade de vida e não uma certeza.
Em terceiro, o fato do aborto ser crime nunca impediu mulher alguma de fazê-lo. Eu mesma conheço várias, todas evangélicas. Portanto, manter a tipificação penal é meio que tentar tapar o sol com a peneira. As mulheres vão continuar fazendo, as que assim decidirem por qualquer razão. Se quiserem por na cadeia todas elas…vai faltar muito espaço.
Só para trazer mais um argumento, vamos lembrar aquelas mulheres que não podem ter filhos. E que fazem uso da inseminação artificial, tão festejada pelos pais que querem ter seus próprios filhos, não adotá-los.  Muitos embriões são formados e não são utilizados. E agora? Se a vida começa na concepção, o aborto é crime, é inaceitável, pecado, então a mulher deverá gerar todos aqueles potenciais filhos? Quem é contra o aborto não pode se utilizar deste método para gerar filhos porque seria uma enorme contradição. Ou então terá que ter 10 filhos ou mais, dependendo do caso.
Ninguém hoje, em sã consciência, é contra a inseminação artificial. É uma bênção para muitas mulheres. Talvez os católicos mais ferrenhos.

Mas uma mulher está disposta a produzir vários embriões, desde que possa gerar um deles, pelo menos. E a mesma mulher dirá que é contra o aborto. Então tudo é uma questão de dias? Ou de onde está o embrião, onde ele se formou? Em um caso pode ser descartado, em outro não.
Tudo isso eu digo para nos fazer pensar mais além.
Quero deixar claro que não faço apologia ao aborto, de forma alguma. Só tenho uma visão mais larga do assunto e procuro não misturar minhas convicções pessoais com políticas públicas.
Eu acredito que o Estado deveria investir muito mais em saúde pública, controle de natalidade, assistência à mulher, etc. Só que isso não acontece, infelizmente.
Eu não consigo fechar os olhos a algumas realidades indiscutíveis:
1. milhares de mulheres morrem todo ano ao fazer aborto em condições medonhas;
2. temos no país milhares de crianças abandonadas, sem contar as que esperam por adoção em alguma instituição;
3. temos milhões de pessoas que foram geradas sem vontade e criadas sem amor, sem cuidado, sem condições mínimas de vida e que hoje se drogam, prostituem ou têm uma vida problemática;
4. mulheres sem acesso a um aborto clandestino acabam tendo 10 filhos quando não poderiam ter nem ao menos um;
5. milhares de mulheres viciadas têm filhos que já nascem viciados tb, porque elas vendem o corpo pra comprar droga;
6. muitas mulheres não têm escolha na hora do sexo, lembrando que o machismo ainda impera por aqui;
Eu não consigo entender como que obrigar essas mulheres a terem esses filhos, sob pena de crime, possa ajudar em alguma coisa.
O ideal é que nada disso estivesse presente em nossa sociedade. Mas está!!
Eu acho o aborto algo terrível. Mas sou a favor de dar a mulher a liberdade de escolher, se quer ter o filho ou não. Obrigá-la a isso, pra mim, também é horrível. É como que penalizá-la por não ter tido o cuidado de não engravidar, como se isso estivesse TOTALMENTE sobre seu controle.
É claro que tudo se complica quando se fala de “em que momento abortar”. Mas esse assunto eu deixo para os médicos e para a ciência.
Alguns argumentam que legalizar o aborto seria uma tentativa de resolver outros problemas permitindo um crime. É uma questão importante. E acho que aqui tem um pouco de hipocrisia, porque se pode abortar em caso de estupro. Mas o feto não tem culpa do estupro. No entanto ele pode ser descartado. Preserva-se a mulher nesses casos. O que eu acho correto. Seria muita crueldade.
Para resumir a novela, eu creio que uma série de atitudes devem ser tomadas para minimizar o problema, ou os problemas.
Políticas de saúde pública, conscientização da sociedade, educação, programas de controle de natalidade, acesso a anticonsepcionais grátis, etc. Mas eu incluiria a possibilidade de, após um atendimento especializado, com psicólogos, etc, aquelas com gestação indesejada pudessem abortar se assim decidissem, sem correrem o alto risco de morrer nas mãos de um açougueiro qualquer.
Acho que eu não faria um aborto. Mas não tenho coragem de obrigar alguém a ter um filho que não quer. Deve ser terrível, tanto para a mãe quanto para a criança.
Cada um tem a sua opinião sobre o assunto. Mas eu creio que, politicamente, se deve decidir pelo que melhor vai responder aos anseios da maioria da sociedade, em especial àquilo que as mulheres desejam.
É como eu penso. Posso mudar no futuro…
Abração.

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