Novo Conto.

Octagenárias.

Etelvina, oitenta e dois anos de pura vitalidade, mora no quinto andar de um prédio cujos moradores já estão mais pra lá do que pra cá. O mais novo residente é um viúvo, Seu Alfredo, faz só trinta e dois anos que reside no 308. É uma vizinhança que, somadas as idades, chegaríamos à era do bronze. Etelvina é a mais espevitada de todos. Há cerca de duas décadas (!) criou um grupo de jogadoras de canastra em sua casa. Toda quarta, 18h em ponto, reúnem-se ela, Mariquita, Laura e Celma. Mariquita é a mais velha, com honrosos oitenta e cinco anos, do 604; Laura tem oitenta e Celma oitenta e três, moram no 501 e 502 respectivamente. Com exceção de Mariquita, a solteirona da turma, todas são viúvas.
Faltam dez minutos para as 18h, de uma fria quarta-feira de Julho.
– Hoje acordei animada. Nem a artrite me derruba. Elas vão ver só com quantos paus se faz uma canoa…ah se vão.
Vai até o interfone já meio irritada:
–  E aí, Laura, vocês vem ou não?
– Já vamos, já vamos…estou esperando a Celma me trazer o tricôt. A Mariquita já está descendo.
– Espero que não seja pelas escadas…Ela fez o bolo de milho?
– Fez sim…ta indo.
A mesa da jogatina está posta. Pano verde e baralho novo. As duplas se preparam, Etelvina com Mariquita e Laura com Celma. Sempre foi assim. Chá no bule e bolo de milho cortadinho em cubos, tudo bem arrumado numa mesa auxiliar, para não atrapalhar o jogo.
– Semana passada vocês nos ganharam, gurias, diz Etelvina com ares de vingança; mas hoje será diferente!
– Essa eu quero ver.
– Deixa ela se iludir, Laura, vamos mostrar na mesa quem são as tais na canastra.
– Mariquita, trouxe teus óculos?
 Etelvina não quer ver repetido o fiasco do último jogo.
– Trouxe, ta aqui…
– Então põe logo isso e vamos começar…Laura, embaralha.
– Por que eu? Embaralha tu, ora.
– Ta, velha rabugenta. Me dá logo esse baralho.
Cartas bem misturadas, começa a disputa.
– Celma, tu dá o morto.
– Já dei meu morto faz anos!! (Gargalhadas)
– Ah, meu Deus, ainda tem que aguentar as piadinhas dessa doida…
Cartas distribuídas por mãos velhas e recebidas por outras muito enrugadas, mas todas com unhas bem pintadas. Imagine! A manicure fatura mais toda quarta-feira!
E o jogo segue. As amigas se olham, tomam chá com bolo, sem descuidar do embate. Uma, duas, três, quatro rodadas…Celma e Laura com jogos bons na mesa… e Etelvina aflita.
– Mariquita, tu não tem nenhum jogo ai pra ajudar não?
– Que?
– Um jogo!! Tu ta cheia de cartas na mão!
– Deixa eu ver…ah…tem um aqui escondidinho, lá vai…
– Que é isso, Mariquita, trinca de oito????
– Que é que tem?!?!
– É o pior jogo que tu podia fazer!!! Mata todos os meus!
– Poxa…desculpa, Etel.
– Ta…ta…descarta logo e vamos continuar…vixe…vou ter que mudar tudo aqui.
Celma e Laura muito concentradas. Passa mais uma rodada e nada. Etelvina já está ficando vermelha, e não é do chá.
– Pronto, Mariquita, vou largar uma carta boa pra ti, diz Celma com um riso nos lábios.
– Obrigada, Celma, vou aceitar sim.
– Ta, chega desse rapa pé e joga, Mariquita. Faz alguma coisa, pelo amor de Deus! To jogando sozinha!
– Tenho mais um joguinho aqui…e não é trinca não!
– Beleza, se anima Etelvina. Uma sequência de ouros, sem coringa. Ótimo! Vai me ajudar…
– Pronto, descartei… tua vez Laura.
Etelvina arregala bem os olhos e não acredita no que está acontecendo.
– O que é isso, Mariquita, um ás de espadas????? Tu largou um ás de espadas???????
– E daí?!?! Tava me sobrando…Me dá um pedaço de bolo, Celma…obrigada.
– Mas tava faltando pra canastra limpa delas, sua gorda cegueta duma figa!!!!!
– Hein?
Gargalhadas das oponentes. Laura se avança na carta antes que alguém mais o faça…
– Calma, Etel, eu não vou bater ainda…
– Calma????? Essa velha caduca só faz besteira!!!
– Caduca não…cof …cof… cof…
– Mariquita, toma um gole de chá que passa! Toma logo!
– Toma nada, engasga com o bolo, peruquenta!
– Quê? Peruquenta é tua vó torta! cof…cof…cof…
Laura tenta acalmar os ânimos, mas bate na xícara sobre a mesa e o estrago está feito.
– Olha aí, desastrada, agora completou…
Mesa limpa, pano verde trocado, segue o baile.
– Bom, acho que agora chega, né, Maricota?
– Tu sabe que não gosto que me chamem assim…
– Quem sabe isso faz tu te mexer!
– To concentrada agora, to concentrada…
Etelvina consegue montar um jogo e bate pra pegar o morto.
– Agora sim! Mariquitinha, vamos nos recuperar!
– Acho que não dá mais, Etel…Laura e eu estamos na frente, olha nossas cartas!
– Nada! Agora sai jogo.
– Deu…tua vez Mari.
Ela compra do baralho, e sorri…
– Pronto. Bati.
Laura e Celma se desmancham em risadas. Celma corre pro banheiro, sentindo que a incontinência urinária ultrapassou os limites da fralda geriátrica. Laura tem cãibras no estômago e vai procurar o Esordil na bolsa.
Etelvina está muda. Mariquita não entendeu o motivo de tanta algazarra.
– O que foi?!?! Bati! Cem pontos a mais pra nós! Eu disse que estava concentrada…

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