Novo conto

Escrevi um pequeno conto nas férias. Espero que gostem. Abraços.

O velório


Pedrinho gostava dessa hora do dia. Quando sua mãe acendia a luz da varanda ele ficava à espera deles. Sabia que não resistiriam. Ficava sentado sempre no mesmo lugar, no último degrau que dava acesso à pequena casa de madeira onde morava desde que nasceu. Ali era seu local preferido. Todos os dias, no início da noite, eles vinham. Pedrinho já tinha vários espécimes, uma verdadeira coleção. A maioria morria logo, mas algum ele mantinha como uma espécie de animal de estimação.
Seus preferidos eram os grilos. Mas também gostava dos gafanhotos, bezouros, tudo o que aparecia na luz da lâmpada. Nunca entendeu por que algumas pessoas morriam de medo deles. Eram bichinhos tão interessantes! Pretos ou coloridos, com guampas ou sem elas, uns fazendo barulho, os vagalumes com suas luzinhas, quem inventou esses insetos era um gênio.
Gostava de pegar os cascudos. Viráva-lhes de barriga para cima e ficava olhando eles se debaterem.
– Tu não devias ter entrado pela cozinha! Agora vais ficar de castigo! 
Passava horas distraído com seus bichinhos. Há uns quatro dias apareceu um grilo enorme. Fazia uma barulho danado. Este, Pedrinho separou com mais atenção. Fez uma casinha com caixa de sapato, dava comida, água. Estava a procura de um companheiro para ele. Quem sabe uma “grila”. Não queria que ficasse sozinho. Sabia como era se sentir assim. Era a única criança na casa. Tinha que brincar com ele mesmo. Seu primos da mesma idade moravam longe e os vizinhos… bom, não gostava muito de brincar com eles. Só queriam saber de jogar bola e Pedrinho não era muito bom nisso. Diziam que ele tinha pé torto. Preferia ficar com seus insetos. Seus pais achavam aquilo meio engraçado, mas não falavam nada. Deixa o guri, dizia o pai.
O grilo recebeu o nome de Leôncio. Ninguém entendeu o porquê desse nome. Apenas disse que tinha cara de Leôncio. Vai entender as crianças. O menino levava o bichinho a onde quer que fosse. Na escola, Leôncio ficava em um compartimento secreto da mochila. Era um lugar bom, ventilado, tinha uns furinhos pro grilo respirar. Ele ficava quietinho ali, esperando a hora de ir para casa. Lá ele voltava pra sua casinha de caixa de sapato. À noite Pedrinho iria procurar uma grila bem bonita. 
Chegou em casa correndo, como sempre. Suado, com seus cabelos louros grudados na cabeça. Subiu as escadas da varanda e foi até a cozinha pra tomar um gole de água fesca. Quando entrou percebeu um clima meio estranho. Tia Rita estava lá, parada em frente à geladeira. Sua mãe sentada com os olhos vermelhos. Dava pra ver que tinha chorado. Estavam falando, mas pararam quando ele entrou. Pedrinho pegou um copo na pia, encheu de água do filtro de barro e foi para o quarto. Sabia que tinha algo errado mas teve medo de perguntar.
Mais tarde, sua mãe lhe chamou para tomar uma limonada. Era o pretexto para contar que a Tia Clara tinha morrido. Ela já estava doente há tempos, uma doença que Pedrinho não sabia dizer o nome, muito complicado: tromboalgumacoisa. Tadinha da Tia Clara, ficou que era um fiozinho de gente. Ela entendia esse gosto do menino por insetos. Era professora de ciências na escola particular do município. Também gostava da bicharada voadora. Pedrinho dizia que ela era a tia mais legal de todas. Ficou triste o resto do dia. Até esqueceu de buscar uma grila pro Leôncio.
De manhã cedo o movimento na casa era intenso. O enterro seria as quatro da tarde, no cemitério São Lucas, perto dali. Pedrinho nunca tinha ido a um enterro, nem tinha visto um morto antes. Sentia uma bola no estômago na hora de tomar o café. Ninguém falava nada à mesa. A família toda estava ali, tios, primos e pessoas que ele nunca tinha visto antes. Todo mundo com a cara fechada e usando roupa preta. Pedrinho usava uma camiseta vermelha, mas sua mãe mandou ele trocar. Não tinha nenhuma que fosse preta. Botou a azul escuro, era a coisa mais parecida com preto que ele viu no armário.
Na capela, o caixão com Tia Clara estava bem no meio, aberto e cheio de flores brancas. Só o rosto e as mãos  apareciam no meio delas. Até que estava bonito assim, pensou. Tia Clara estava mais magra ainda do que ele lembrava. Alguém tinha passado um baton rosa nela. Achou estranho aquilo. Tia Clara usava baton vermelho e não rosa. 
Ficou do lado de fora da capela a maior parte do tempo. Leôncio estava dem acomodado no bolso da calça. Teve o cuidado de usar uma mais folgada pra ele não ser amassado. Mas hoje Leôncio estava inquieto. Vez em quando dava um grito. A parentada olhava em volta pra ver de onde vinha o barulho. Ninguém imaginou que guri pudesse ter levado o bicho junto, não numa hora daquelas. Sua mãe lançou-lhe um olhar de interrogação, mas não disse nada. Por isso achou melhor olhar o velório de longe. Não havia nada mesmo que pudesse fazer ali.
Tirou Leôncio no bolso pra tomar um arzinho. Acomodou bem ele na concha das mãos levemente fechadas. Ali o grilo poderia acompanhar tudo e talvez ficasse em silêncio. Seria seu companheiro de velório. De repente sentiu uma picada no pé. Era uma formiga de bunda vermelha, daquelas que têm um ferrão brabo. Imediatamente bateu nela com a mão esquerda. Passado aquele instantinho percebeu que Leôncio não estava mais na mão direita. Tinha dado um salto para a liberdade.
O menino passou a varrer o chão à procura do amigo fugitivo. Nada, nem sinal do grilo. Mas não poderia estar longe, foi só um segundo de distração! Agachado, Pedrinho foi vasculhando todo o terreno em volta da capela. Não havia árvores ali, o que facilitava a busca. Ele tinha que estar em algum lugar, uma fresta, um buraquinho. Nada. Pedrinho estava desolado. Não acreditava que por causa de uma formiga perderia Leôncio…
Passados alguns minutos, que pareceram uma eternidade, ouviu um som. Era Leôncio, na certa. Mas onde? Ficou com os ouvidos em pé. Nada. Nem um sonzinho. Mas sabia que ele estava por perto. Olhou pra dentro da capela e viu que  estavam se preparando pra encerrar o velório. As irmãs da falecida choravam muito e alguns parentes já estavam pegando a tampa do caixão. Logo enterrariam Tia Clara. Precisava encontrar logo Leôncio, ou teria que deixá-lo ali. Não teria coragem de pedir que esperassem encontrar o grilo antes de ir embora. Resolveu dar uma olhada pelo chão da capela, em meio aos pés das pessoas, quem sabe ele resolvera entrar um pouquinho pra fugir do sol quente.
Foi quando ouviu o grito de Leôncio. Virou a cabeça para todos os lados em busca do dito, aflito que alguém pudesse, por descuido, pisar em cima e acabar de vez com a sorte do amiguinho fujão. Nesse momento teve uma visão aterradora: por uma pequena fresta, antes de selarem para sempre tia Clara em seu caixão, Pedrinho viu Leôncio ao lado de uma das flores que colocaram sobre ela. Sentiu um frio na espinha. Leôncio seria enterrado vivo.  Não havia esperanças. O pobre coitado teria que viver seus últimos momentos no escuro de uma sepultura. O que fazer? Sentiu que as lágrimas começavam a surgir e embaçar os olhos. Começou a chorar convulsivamente. Os presentes, que até então não tinham visto nenhuma manifestação por parte do garoto, pararam com tudo espantados. Pedrinho chorava de dar dó. Sua mãe, consternada tentou por todos os meios consolar o menino, sem sucesso. 
Foi quando ela pronunciou uma frase mágica:
– Tu queres se despedir da Tia Clara, querido?
O choro estancou na hora. A tampa do caixão foi aberta para que Pedro pudesse despedir-se da tia que tanto amava. Colocaram um banquinho ao lado do caixão. Pedrinho pediu que o colocassem do outro lado do caixão. Ninguém entendeu, mas concordaram em fazer a vontade do guri. Ele subiu, olhos marejados, soluços.
– Adeus,Tia Clara.
E rapidamente com a mão direita conseguiu pegar Leôncio  sem que percebessem a manobra. Pronto, Leôncio estava a salvo. Adeus, tia Clara.

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