A Mulher e o Cristianismo.

Fazendo uma pesquisa sobre o assunto, encontrei este texto de André Alvares (um blogueiro com textos bem interessantes) que faz um apanhado bem consistente sobre a forma como o cristianismo tratou a mulher ao longo da história. Posto aqui para leitura dos amigos:

A Mulher e o Cristianismo, um passeio pela história.

Durante toda a Antiguidade, a mulher era vista de uma forma absolutamente negativa, em clara situação de inferioridade diante do homem. Platão, célebre filósofo grego, agradecia aos deuses pelo fato de ter nascido grego, livre e homem. Na mesma Grécia, notadamente em Atenas, a tão propalada “democracia”, excluía, dentre outros, às mulheres.

Entre o povo de Israel, a situação não era diferente. Organizado de forma patriarcal, o povo hebreu excluía a mulher tanto do exercício do governo civil, como de maior participação na esfera religiosa. Para Flávio Josefo, importante historiador judeu, “a mulher possui, sob todos os aspectos, menor valor do que o homem”. Em sua vida religiosa e devocional, era equiparada a um escravo, sendo dispensada do Shema, tradicional prece judaica. Seu acesso ao templo limitava-se ao conhecido átrio das mulheres. Boa parte das correntes rabínicas considerava indigno ensinar a lei mosaica à mulher.

O único líder da antiguidade que concedeu dignidade e voz as mulheres, foi, sem dúvida alguma, Jesus Cristo. A situação da mulher no contexto cultural palestino era de completa submissão ao homem. No ambiente urbano, a mulher de forma alguma estabelecia contato direto com os homens. Em Jesus Cristo, notamos uma completa subversão deste quadro. Cristo falava publicamente com mulheres, possuindo inúmeras discípulas. Nutria uma relação de verdadeira amizade com as irmãs Marta e Maria, como fica claro no texto de Lucas 10.38ᆾ. Sua elevada consideração para com as mulheres foi motivo de escândalo entre os discípulos homens. No evangelho de João 4.27, encontramos os seguintes dizeres: “Naquele instante, chegaram seus discípulos e admiravam-se de que falasse com uma mulher; nenhum deles, porém, lhe perguntou: Que procuras? Que falas com ela?” Sua mensagem de salvação e seus ensinamentos e milagres eram direcionados a todos, homens e mulheres. Não é de se estranhar que justamente o sexo feminino, tão desprezado e oprimido pelo homem, tenha sido escolhido por Deus para testemunhar o maior evento da história da salvação da humanidade: a ressurreição de Cristo! No entanto, certa interpretação literalista de determinados textos paulinos, principalmente em ambientes reacionários e fundamentalistas, tem passado a falsa impressão de que a mulher não possuía uma participação ativa na jovem comunidade cristã.

Esta idéia é completamente errônea. No Novo Testamento, encontramos as quatro filhas de Felipe que “profetizavam”, isto é, falavam em público. Em Romanos 16.7, nos deparamos com o nome de Júnia, com certeza uma mulher, entre os apóstolos. No mesmo texto, temos o exemplo de Febe, diaconisa da Igreja de Cencréia. Convém lembrar que o termo diaconisa empregado no texto citado vem do grego diakonos, que denota o título de ministra, e não de uma mera auxiliadora assistencial. Este termo não aparece em Atos 6, onde o serviço diaconal, como conhecemos nos dias atuais, era predominantemente assistencialista. O título de diakonos era exatamente o mesmo concedido a Paulo, Apolo e outros homens. Não bastando as fortes evidências bíblicas que nos mostram a autoridade concedida à mulher na igreja primitiva, temos o testemunho de muitos pais da igreja. Irineu de Lião, Orígenes e João Crisóstomo testemunharam à efetiva participação feminina na vida eclesial. Confirmando esta posição de destaque, a teóloga metodista mexicana, Elsa Tamez, transmite as seguintes informações: “No século III d.C, o bispo de Cesaréia, Firmiliano, menciona uma mulher da Capadócia que celebrara a Ceia do Senhor. Eram tempos de perseguição, e ela, corajosamente, reuniu os cristãos e incluiu a Eucaristia ou Ceia do Senhor na celebração. O bispo, assombrado, disse que ela o fez excelentemente. No século V, um bispo foi condenado por ordenar mulheres como sacerdotes. Parece que a ordenação de mulheres era um fenômeno generalizado”.

Fontes pagãs também atestam a importância feminina nos primórdios do cristianismo. Plínio, o Jovem, governador da Província Romana da Bitínia, informa ao imperador Trajano que duas ministras da Igreja Cristã foram torturadas.

Infelizmente, após a oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, a estrutura patriarcal e machista deste foi incorporada pela igreja. Deste período em diante, o papel da mulher dentro da igreja foi se restringindo à vida monástica. Mesmo assim, encontramos mulheres de grande influência e labor teológico, como Macrina, responsável direta pela formação espiritual de seus dois irmãos, Basílio, o Grande, bispo de Cesaréia, e Gregório de Nissa, conhecidos como “Grandes Capadócios”, verdadeiros gigantes da Igreja Oriental de fala grega.

Durante o período medieval, noviças de inúmeras ordens eclesiásticas desempenhavam um importante papel dentro da igreja. Porém, em situação de completa submissão ao clero masculino. Neste mesmo período, um grupo dissidente, que posteriormente iria abraçar oficialmente o protestantismo calvinista, concedia um elevado status para as mulheres. Estamos falando dos valdenses, que possuíam inúmeras pregadoras no interior de seu movimento. Estas mulheres pregavam com autoridade para ambos os sexos. Com o início do movimento protestante do século XVI, esta situação, mesmo que timidamente, foi gradativamente alterada. Em seu programa de Reforma, Martinho Lutero aconselhou que os príncipes alemães organizassem escolas públicas para meninos e meninas. Nunca a educação formal de jovens garotas foi alvo de um programa sugerido por um líder religioso. Martin Bucer, reformador da cidade estado de Estrasburgo, elaborou um ousado plano eclesiástico em 1532, no qual estava prevista a ordenação de mulheres para o diaconato. João Calvino trocou correspondência com várias mulheres e, entre vários assuntos de natureza pastoral, até mesmo pontos teológicos foram debatidos. O mesmo Calvino escreveu na edição francesa de sua obra magna, as Institutas, datada de 1541, livro IV, capítulo XV, o seguinte pensamento: “E alguma vez vai chegar a hora em que seria melhor que a mulher falasse do que se calasse ”. Para o reformador de Genebra, a restrição paulina encontrada em apenas um texto das Escrituras para a ordenação de mulheres ao oficialato não deveria ser vista como um dogma de fé, mas, sim, como uma convenção cultural de uma determinada época.

Esta postura de Calvino acabou influenciando inúmeras mulheres a desempenharem uma função prática de pastoras, mesmo que não fossem ordenadas para tal. É bastante interessante o relato da historiadora estadunidense Natalle Daves a respeito da participação feminina: “Algumas mulheres prisioneiras nas cadeias da França pregavam para grande consolo de ambos os ouvintes, homens e mulheres. O nosso jurista, ex-calvinista, Florimond de Raemond, deu vários exemplos, tanto de conventículos protestantes quanto de serviços reformados regulares – até o fim de 1572 – de mulheres que, enquanto esperavam a chegada de um pregador, subiam ao púlpito e liam a Bíblia. Uma teóloga até travou discussão pública com seu pastor. Finalmente, em algumas igrejas reformadas no sudoeste de Paris, numa área em que tecelões e mulheres tinham sido convertidos anteriormente, irrompeu um movimento para que leigos pregassem. Isto permitiria que ambos, mulheres e homens sem instrução, se levantassem na igreja e falassem sobre as coisas santas”.

Dentro da esfera calvinista, não podemos nos esquecer do nome da rainha de Navarra, Jeane d´Albret. Sem fazer uso da violência ou perseguição religiosa, Jeane estabeleceu oficialmente a fé reformada na região de Bearn, organizando a igreja segundo os moldes genebrinos. Sua influência era sentida tanto em assuntos burocráticos, como nos aspectos teológicos.

Com o passar do tempo, principalmente dentro do cristianismo protestante, a mulher, mesmo no meio de uma cerrada cruzada fundamentalista, tem conquistado seu espaço. Em nosso país, denominações irmãs como Exército da Salvação, Igreja do Evangelho Quadrangular, Episcopal Anglicana, Metodista do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana, Presbiteriana Unida e uma infinidade de comunidades de pentecostais livres ordenaram mulheres aos diferentes níveis de oficialato.

E, dentro deste movimento de reconhecimento da importância feminina na igreja, a nossa amada IPI do Brasil possui história. Fomos uma das primeiras denominações a ordenar mulheres ao diaconato, no início da década de 30 do século passado. Em 1999, por decisão do então Supremo Concílio, agora Assembléia Geral, foi aprovada a ordenação efetiva de mulheres ao presbiterato e pastorado da igreja.

Rogamos a Deus que a mulher não seja reconhecida apenas em uma data, mas que seu valor seja notado diariamente, assim como nos ensina o apóstolo Paulo: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

http://andrealvares.blogspot.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s