Os gambás de Dona Maria

Três horas da madrugada e Dona Maria ainda não conseguiu dormir. E isso tem se repetido já há alguns dias. Casa velha de madeira tem disso: estala, range, faz inhec-inhec. E não é só isso. Nunca se sabe quando uma bicharada vai invadir o porão ou entrar pelo meio das telhas pra fazer balbúrdia. Ou o que é pior: residência fixa.
Dona Maria convive com essas pendengas desde menina. Já teve de tudo no porão da casa: cadela no cio e seus muitos pretendentes, ratos e gatos – alguns ratos deram surras homéricas em gatos de primeira viagem – gambás, zorrilhos fedorentos, gansos do vizinho e por aí vai. Os gambás gostam mesmo é do forro e de perambular entre as paredes de madeira dupla. Já os gatos adoram fazer serenatas ao luar, só que debaixo da casa. Ela ainda lembra bem. Vira e meche seu falecido pai (um sinal da cruz e um “que Deus o tenha!”) tinha que fazer uma “limpeza” para remover hóspedes indesejados.
Mais nova de três irmãos, é a única herdeira viva da velha casa de madeira marrom com janelas brancas. Solteirona, setenta e sete anos, vive sozinha. Tem um velho cachorro vira-latas, que um dia apareceu todo estropiado após uma briga de rua, que a segue pela casa e quintal. Há anos ela havia desistido de ter animais de estimação. Era muito triste quando eles se iam. Mas aquele danadinho, branco com uma mancha marrom no olho esquerdo, conquistou o coração da velha. E agora é seu companheiro já fazem mais de cinco anos, se é que a memória ainda funciona direito. Nome? Totó. Cliché, mas depois dos setenta anos não se deve esperar muita novidade.
Mas voltando à vaca fria, são três da matina e nada dos gambás irem dormir. Dona Maria não aguenta mais os guinchos, correrias e coisinhas caindo que pareciam pedrinhas rolando parede abaixo. O furdunso é grande e bem na cabeceira da sua cama! – Isso já é um abuso, pensou. Amanhã darei um jeito nesses chatos!
Cansada, acabou dormindo além do horário de costume. Quando olhou o relógio no criado mudo teve um susto. – Dez horas e ainda na cama? Absurdo. Levantou o mais rápido que um corpo permite nessa fase da vida e foi cuidar das lides diárias. Decidiu que naquela tarde teria uma solução para as noitadas dos gambás. Isso estava passando dos limites. Uma mulher na sua idade não pode ter esses incômodos, pensou. – Já estou velha demais pra isso.
Com pouco esforço conseguiu fazer suas coisinhas até a hora do almoço. Recolheu uma roupa que havia ficado na corda, lavou umas calçolas, fez uma geralzinha no banheiro – sim, porque banheiro tinha que ser limpo todos os dias – e a verdade é que ela se virava, dava conta da casa com tranquilidade. Só pagava uma faxineira mês sim, mês não. A saúde nunca fora um ponto fraco. Seu fraco era o mate bem cevado com erva do Uruguai e uma cachacinha antes do almoço. Essa não podia faltar, mesmo depois que Dr. Everaldo a proibiu por causa da gastrite. – Pra gastrite eu tomo remédio! Mas o que tem pra substituir o mate e minha cachaça, hein Veraldo? Era assim que chamava o Doutor, filho da comadre Neiva. Dona Maria pegou aquele guri no colo e trocou muita fralda suja. – Ele que não me venha dar ordens.
Por conta da hora, pulou o mate e foi direto para a pinga. Dois dedos e só. Pegou umas panelas na geladeira e riu sozinha. Sorte ter sobrado umas restantinas, assim ela não precisava perder tempo. Um guisadinho com chuchu e cenoura, arroz e alface: um lauto almoço. Comeu um pouco, deu sobras ao Totó, menos a alface, que cachorro não é chegado nessas coisas de folhas verdes. Lavou a louça e as panelas rapidinho e deixou no escorredor pra secar. – Na volta eu guardo tudo.
Sem mais demora, colocou um baton clarinho, ajeitou o cabelo e pintou as sobrancelhas para não ficar com cara de desbotada. Sobraram só os fios brancos ali. Bem, não só ali… mas isto é outro assunto. Um lápis kajal marrom escuro resolve. Pegou a bolsa, as chaves da casa e do portão, deu um “já cachorro” no Totó que estava assanhado pra sair junto e se foi.
– No armazém do Seu Marcos tem um menino que ajuda na venda das frutas. Por uns trocados ele sobe no forro e espanta o bando todo.
Era o que ela imaginava.
– Seu Marcos, boa tarde! Seu ajudante está aí? Queria que ele subisse lá no forro de casa pra espantar uns gambás que estão morando lá. Pago cinquenta reais pra ele.
– Oi Dona Maria. Acho que ele não vai querer… essa gurizada não quer nada com nada…mal consigo que ele empilhe as caixas de frutas vazias, mas a senhora pode perguntar. Leandroooo! Chega aqui na frente!
O garoto apareceu. Era um guri de uns dezesseis anos, magrinho e de cabelos compridos. Dona Maria fez a proposta, explicou tudo direitinho. O guri encostou-se no marco da porta e disse:
– Mas por que a senhora não usa fumegante? Nem precisa subir. Não tô por essa parada. E voltou pras suas caixas.
– Que foi que eu disse? Falou Seu Marcos, com uma boa risada.
Indignada, foi falar com o Seu Caetano, um marceneiro que dava jeito em suas cadeiras quando elas começavam a descolar. Ouviu dele o mesmo:
– Use um fumegante, Dona Maria! Já usei lá em casa. A senhora não vai achar quem queira subir no seu forro. Isso é coisa de antigamente. Vá por mim!
Dona Maria deu meia volta e resolveu ir ao centro da cidade.
Tinha que pegar um ônibus só e sem pagar. Benefícios da idade avançada. – Pelo menos alguma coisa tem que ter de bom, dizia sempre ao motorista.
– Agropecuária São Cristóvão, na Rua da Ladeira, disse baixinho. E lá foi ela. Sempre que surgia algum problema com suas plantas e árvores do pátio ela resolvia com eles. Os funcionários sabiam exatamente qual a solução para cada praga, caruncho, fungo e formigas, o que quer que fosse. – Devem saber o que fazer com gambás.
– Boa tarde. Estou com um problema na minha casa. Tem gambás na parede do meu quarto. O que vocês têm aí que possa espantar esses danados?
O funcionário, que era novo na loja, não deu muita atenção ao caso e foi logo respondendo que eles não tratavam dessas coisas, só vendiam produtos para plantas e para animais, nada para “espantar” animais.
– A Senhora pode procurar a vigilância sanitária, ou o setor de pragas da Prefeitura, eles devem saber o que fazer. E voltou a desencaixotar uns vidros e por nas prateleiras.
Dona Maria deu duas piscadas e não economizou no tom de voz:
_ Ô Seu…Seu…como é mesmo seu nome? Ah…tá no crachá… Sílvio. Ô Seu Silvio, me chama aí a Dona Margarida. Ela sempre me atende aqui e sabe muito mais do que o Senhor, que pelo jeito não vai durar muito no emprego.
O funcionário fez uma cara de “sem paciência” e foi até os fundos, voltando com a Gerente, Margarida. Mulher de uns quarenta anos, alta e com peso bem acima do desejável, muito sorridente veio logo para frente do balcão com os braços estendidos para Dona Maria.
– Como vai a Senhora? Faz tempo que não nos visita!
– Pois é, Margarida, estou com um probleminha lá em casa mas o rapaz aí parece que não sabe muita coisa…já me mandou até pra Prefeitura, vê se pode.
– Não dê importância, Dona Maria, ele é novo… (risos). Mas qual é o problema? Em que posso lhe ajudar? Em tudo damos um jeitinho, a Senhora sabe.
– Pois então…estou com uns gambás no forro e por dentro das paredes da casa, estão me infernizando. Fazem uma bagunça de noite e não me deixam dormir. Tem alguma coisa que espante esses bichos?
– Mas é claro! Temos um fumegante aqui que vai mandar eles todos para o inferno, e é bem baratinho!
Dona Maria pensou um pouco e disse meio desconfiada:
– Mas isso é veneno? Eu não quero matar os coitados, só quero que eles se mudem.
Margarida deu uma risada.
-Mas quem se importa com gambás? São umas pragas. Estão incomodando… então que morram, quem vai sentir falta deles? (risos). A Senhora vai gostar do produto, vendemos muito bem. Sem reclamações, a bicharada morre mesmo.
– Tá bem, tá bem, o que mais tem aí? Alguma coisa assim mais fraquinha…
Margarida pensou um pouco.
– Bom, se a Senhora não quer matar os bichos, nós temos a arapuca. Custa um pouco mais caro.
Margarida foi buscar nos fundos da loja. Voltou com uma caixinha de madeira do tipo gaiola, pouco maior que uma caixa de sapatos. Depois de explicar minuciosamente como armar a coisa, Dona Maria decidiu que era aquilo que ela queria.
– Se meu falecido pai estivesse vivo – um sinal da cruz e um “que Deus o tenha”- ele subiria no forro da casa e espantaria esses chatos com baldes d’água e Q-Boa, sempre funcionou. Mas agora não se acha um vivente que aceite fazer isso, nem pagando. Já tentei. Bando de preguiçosos.
Com a arapuca embrulhada e dentro de uma sacola de plástico, voltou para casa certa de que resolveria a questão sem matança. Afinal, eram animaizinhos inofensivos, só tinham que mudar de endereço. E isso ela faria com a arapuca. Quando ficassem presos, ela os levaria para um lugar bem longe dali.
À noite, como explicou Margarida, ela colocou algumas frutas dentro da arapuca e deixou abaixo da janela do seu quarto, bem na entrada do porão. Porta armada pra fechar quando eles entrassem, foi dormir. Pelo menos iria tentar. Cansada de toda a movimentação do dia, não ouviu barulho algum e dormiu um sono pesado.
De manhã, ao acordar, olhou para o relógio que fica no criado mudo. Oito horas. Perfeito. Uma boa noite de sono, sem problemas. No mesmo instante lembrou-se da arapuca. Levantou-se o mais rápido que um corpo pode fazer nessa fase da vida e foi ver o que havia lá dentro. Pé por pé foi chegando perto, seguida por Totó que precisou ser reconduzido para dentro de casa ou iria latir como um doido ao ver os bichinhos.
De pé, ao lado da gaiola, viu um movimento. Pelinhos se mexendo, meio cinzas, meio beges. Era uma coisa peluda, com certeza. Abaixou-se para ver melhor. Foi então que conseguiu perceber o que era: dois olhos marrons de uma gambá femea lhe fitavam, e outros dois olhinhos de um filhote que mais parecia um camundongo pelado, pendurado em sua teta. Ela já havia comido o pedaço de banana que estava ali. O pequeno mamava.
Dona Maria e a mamãe gambá se olharam fixamente durante alguns instantes. A velha sentou-se no chão e ficou ali, olhando a cena, sem saber o que fazer. O tempo passava e nada se movia, nem os gambás nem Dona Maria. Após algum tempo, ela aproximou-se da gaiola com os joelhos no chão. Tentou tocar na caixa, mas a gambá mostrou os dentes e deu um guincho. E agora?
A velha mulher começou uma conversa.
– Pois veja, dona gambá. Vocês têm feito muito barulho. Eu não sei qual é o problema, pode ser que a senhora tenha problemas com seu marido, mas assim não dá! Eu preciso dormir. Já sou velha demais pra ficar a noite toda acordada. Eu entendo que a senhora tem filhote e tal, mas não dá pra fazer um pouco de silêncio à noite? …
Por uns bons quinze minutos deu-se um monólogo interessante que se alguém mais ouvisse diria que Dona Maria já estava caducando. Mas o fato é que, depois de uma boa conversa, ela decidiu abrir a tampa da gaiola. Lentamente ela destravou a arapuca. Não houve grunidos nem exposição de dentes. Mãe e seu filhote saíram calmamente… e entraram no porão.
Dona Maria ficou ali mais alguns segundos, sentada no chão, pensando. Depois levantou-se e foi cuidar da vida. Lavou roupa, limpou o banheiro, fez um mate. Tomou os dois dedos de cachaça olhando pela janela do quarto, onde havia encontrado os bichinhos, para ver se havia movimento. Nada.
Fez seu almoço, como de costume. Nada de mais: coxa de frango com legumes, arroz e salada. Depois do almoço, deu os restos ao Totó, mas separou alguns para por debaixo da janela, junto com um pedaço de banana.

Enviado do tablet Samsung

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